Notícias Mundo ao segundo: Covid19, a China e a Europa - a opinião de Luís Filipe Meneses.


por Luís Filipe Meneses em 04-04-2020 às 21:50

A China é um País de dimensão continental. Equiparado à Europa, com regiões diversas semelhantes aos diferentes países europeus, só que com muitos mais habitantes. 1,386 mil milhões (duas vezes e meia a demografia europeia). Nessa união de regiões / like Estados, só uma terá sido fortemente atingida pela pandemia do Covid-19, Hobei, cuja capital é Whuan.
Foram tomadas medidas e todo resto da China não foi atingida, todo o País se mobilizou para Whuan e colossos populacionais como Pequim e Xangai passaram ao lado da crise.
Assim, num território com 9 milhões de Km2 e os tais 1 386 mil milhões de habitantes, “só” foram atingidos 81 129 mil cidadãos e “só faleceram 3 318 ! Na Europa da União Europeia, com os seus pouco mais de 4 milhões de Km2 e 500 milhões de habitantes, já aconteceram mais de meio milhão de casos e já ocorreram mais de 40 000 óbitos!

A China é muitíssimo desenvolvida no seu litoral, mas tem regiões interiores, com a maior parte do território e população, ainda mergulhadas numa espécie de Idade Média. A Europa é, no seu conjunto, a terceira economia do mundo, e muito mais harmoniosa que a China em termos de desenvolvimento médio.

Então o que separa uma “pequena” epidemia na China, da catástrofe europeia! (deixo de fora deste texto as teorias da conspiração e a putativa mentira sobre os números veiculados pelas autoridades chinesas). A resposta é lastimável mas óbvia.

De um lado uma ditadura férrea, a primeira a usar as mais sofisticadas tecnologias para controlar individualmente os cidadãos que, sem ter o “estorvo”dos direitos e liberdades, funciona eficazmente no combate a este tipo de emergências. Deste lado uma associação de Estados Democráticos de Direito (mas que já vai tolerando ditadores encapotados como o senhor Orban - uma vergonha), que não funciona há muito em nada de particularmente relevante para um projeto de coesão comum e que é um projeto definitivamente em colapso.
Só não o vê nem o aceita uma pequena nomenclatura, que da esquerda à direita, vive entre a chicória gratinada, o fois gras, a choucroute e o riesling.
A China ditatorial isolou imediatamente Hobei, a Europa democrática nada fez para isolar as primeiras regiões onde o surto se iniciou.
A China marchou em força, com tudo que tinha à mão para Whuan e uniformizou as políticas restritivas em todo o território. A Europa abandonou à sua sorte os mais flagelados e foi incapaz de definir uma política comum de contenção, permitindo e até incentivando a continuidade da livre circulação entre a maioria dos países (perante isso ainda mais patética é a carta de desculpas quinta-feira dirigida pela presidente da comissão ao povo italiano - é curioso que é esta comissária que ainda está sob suspeitas de corrupção no seu país!).
A China da ditadura feliz de Xi Jimping mostrou ter de imediato material de proteção para todos os profissionais, ventiladores aos milhares, máscaras para todos os cidadãos. A Europa berço da democracia. em quase todos os países, mesmo em alguns dos mais ricos, evidenciou de imediato não ter em stock estes materiais e, pior, não ter nenhuma capacidade de os auto produzir em tempo útil.
É caricato o comboio aéreo contínuo da China ditatorial para todo o mundo, transportando o material que eles têm, já tinham, e mostrando a impressionante capacidade, quase instantânea, de produzir esses equipamentos em poucos dias. É deprimente e vergonhosa a luta entre países ocidentais, muitos europeus, atropelando-se uns aos outros, para, pagando mais, terem rápido acesso ao infindável mercado chinês.
A China de Xi Jimping, pasme-se, a par da “democracia” russa e da orgulhosa e perene Cuba revolucionária, é que aterram na Europa, mãe do Estado Social, com cortejos humanitários de técnicos especializados e equipamentos essenciais disponibilizados ou doados!
A Europa, mãe e pai do Welfare State, não tem um contigente europeu sanitário de “solidariedade rápida”, adia por dez e quinze dias reuniões imprescindíveis do Eurogrupo, tudo isto enquanto morrem diáriamente milhares de europeus. É uma Europa que se dá ao luxo de ter o seu país liderante com uma líder (apesar de ser ainda a mais credível e experiente) com um mandato a prazo. Este quadro global é condimentado com a falência das grandes instâncias internacionais do pós-guerra.

É confrangedor ver homens bons e credíveis, como Guterres e Ghebereyesus, circunscritos a protagonistas de uma represtinação planetária das “Conversas de Família” do, também bem intencionado, mas políticamente impotente, padrinho do nosso atual Presidente, Marcelo Caetano, no final do regime caído em 25 de Abril de 1974.

Esta novela planetária, para ser mais trágica, ainda tinha de ser contemporânea da queda a pique da influência americana, liderada por um indigente intelectual, ser apimentada por líderes como o boçal e desmiolado Bolsonaro ou como o louco presidente filipino, que manda atirar a matar sobre quem não cumpra a quarentena obrigatória.

Com tais distrações o desastre anunciado no mártir continente africano e em gigantes como o Paquistãoe a Índia, até passam desapercebidos.

Pobre mundo, ao que chegou a humanidade de Leonardo, Einstein e Bill Gates, ou, principalmente, a de Ghandi, Mandela, Anjeze Bonjaxhiu e Karol Woitila!
Este é um discurso pessimista? Nem pensar. O realista é um pessimista consciente e pró ativo. E no realismo pragmático é que se fermenta o otimismo e a esperança na mudança.
Nos séculos VI e XIV as pestes bubónica e negra, terão dizimado entre 50 a 100 milhões de pessoas, cerca de 25% da população mundial. Parecia que a aventura do homem na Terra ia terminar.
Todavia, logo de seguida floresceu a Renascença, um dos período de ouro do homo sapiens. Na literatura, na ciência, na arte, houve um Big Bang de genialidade.

Curiosamente com epicentro na flagelado península itálica. Boccacio, Maquiavel, Leonardo da Vinci e Miguel Angelo, ou Galileu, este já no dealbar do Século XVII, evidenciaram essa catarse positiva que brotou das trevas. Esperemos que o mundo do futuro próximo tenha também os seus génios e heróis, gerados nestes tempos de horror, incerteza e desânimo. É provável e desejável que eles surjam na luta pela reconversão ambiental do planeta, no combate pela equidade económica e social entre continentes, na humanização e reconversão do egoísmo, ganância e egocentrismo individualista que tomou conta da maioria dos homens em sociedade.


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