Crónicas Mundo ao segundo - Nós e o Mundo 02: Os lares portugueses e o Covid19.


por Luís Filipe Menezes em 19-05-2020 às 23:20

Os lares portugueses estão a ser o mais evidente calcanhar de Aquiles nesta pandemia. A idade elevada, a co-morbilidade de muita da sua população e alguma incompetência previsional, estão a a sujeitar estas instituições a uma pressão desumana. Se ainda não houve uma explosão calamitosa tal só se deve ao enorme exército guerreiro que trata desses idosos e os gere.

No entanto, sendo hoje a prioridade, lutar no terreno para diminuir ao mínimo os óbitos nos lares, a seguir todo este setor deve ser repensado.
É óbvio. A população mais envelhecida dos lares, por vezes, nem sequer a antiga quarta classe tem. Daí também não terem sido vacinados, com o putativo protetor BCG - que vacinou milhões de portugueses e pode ser uma das razões da moda resistência biológica (a vacinação foi obrigatória entre 1965 e 2017, e também quando da entrada em certos graus de ensino).
Os lares onde vivem centenas de milhar de idosos nasceram da pró atividade das Misericórdias e das Igrejas (nomeadamente da Igreja Católica), verdadeiras campeãs, na nossa comunidade, da solidariedade e amor ao próximo. Alguns também nasceram da iniciativa privada, muitos qualificados,  legítimos e úteis, outros nem tanto.
Todavia há um parâmetro comum a uma maioria. A sobrelotação, a mistura entre utentes autónomos e saudáveis com outros muito dependentes e necessitados de cuidados médicos quase permanentes, a combinação entre patologias meramente orgânicas e outras com profundas e limitativas repercussões mentais.
Chegou a hora de mudar de rumo. Realística e gradualmente, mas sem hesitações.

Os seniores autónomos e com parâmetros razoáveis de saúde deviam ter lares / residência, pequenos, com grande privacidade individual, inseridos no tecido urbano normal. Com vizinhos, serviços e comércio de proximidade. Dessa forma teriam também uma convialidade motivadora fora do circuito estrito e permanente do mesmo grupo etário e dos habituais, insubstituíveis e dedicados, curadores. Aliás a mistura de autónomos e saudáveis com alguns quase vegetativos é deprimente e demolidora para o equilíbrio emocional dos primeiros.

Os mais dependentes, também não concentrados em mega estruturas, precisavam de instituições mais próximas daquilo que são os hospitais de cuidados continuados. A sua saúde precária exige-o.
Os que têm handicaps mentais precisavam de assistência muito especializada e muito pro ativa.

Portugal pode ser nesta matéria moderno e inovador. Ser uma vanguarda mundial.

Com inteligência e criatividade, e atendendo ao próprio património físico (em equipamentos) da maioria dos prestadores, Misericórdias e Igreja, era possível, com o Estado e a banca, lançar programas de engenharia financeira que permitissem inovar e avançassem a curto prazo.
O ideal era arrancarem o mais de perto possível projetos pilotos nas grandes cidades, onde as autarquias seriam certamente parceiros empenhados e úteis.
Para o sucesso desta mudança há dois parceiros que têm que assumir mais responsabilidades. O Estado, até agora só co subsidiário, e as famílias.

O Estado tem que ser um parceiro, que no mínimo  partilhe com as instituições da sociedade civil, não só o co-pagamento  do funcionamento, como hoje, limitadamente, já o faz, mas também o co-financiamento do investimento necessário às pré descritas mudanças físicas e organizacionais, imprescindíveis e inadiáveis.

As famílias, sejamos honestos, nem sempre têm estado à altura do devido altruísmo geracional solidário, justo e não egoísta.

Muitas há as que têm justificação séria, real. Não têm condições de alojamento minimamente aceitáveis para acolher os seus idosos,  não têm recursos financeiros para os custos de proteção presencial de idosos que requerem muitos cuidados e diversificada medicação, mas também há aqueles que por egoísmo ingrato os “despacham” para instituições e, alguns, que até poucas vezes os visitam.

O Estado tem que facultar as condições logísticas e financeiras a todos que desejem tratar dos seus, em sua casa, até ao final da vida. Por seu lado a sociedade tem que ser implacável a censurar os que podendo fazer, os excluem, por puro egoísmo ingrato, das duas vidas.

Com esta visão de fundo, talvez também haja menos limitações para que as famílias jovens tenham mais descendentes, prescindindo assim de uma norma enraizado em gerações hiper hedonistas a quem tantas vezes ouvi esta patética frase: “...não queremos filhos, no máximo um, porque queremos ter o direito de gozar a vida...”.

Aos que querem cuidar dos seniores e querem ter mais filhos, o Estado tem  que corresponder com uma verdadeira política de família (pois também é justo entender que a escassez de descendentes está também, muitas vezes, ligada a uma prudente gestão de um parco rendimento familiar).

Mas sejamos claros, para sermos dignos das próximas gerações, só com mudanças radicais deste tipo honraremos os mártires desta injusta guerra...


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